Deslocamento de abomaso - como prevenir?

06 junho 2018

O deslocamento de abomaso (DA) é umas das principais doenças do trato digestivo nas vacas leiteiras, ocorrendo principalmente nas primeiras semanas do pós-parto. Este distúrbio é responsável por significativas perdas económicas. Estas perdas traduzem-se não só nos custos de tratamento mas também na perda de quilos de leite produzidos aos 305 dias pelos animais afetados e pelo aumento da taxa de reposição, dado as percas pontuais de alguns animais por morte ou refugo. Assim dado as dificuldades económicas que o sector leiteiro em Portugal enfrenta é fundamental apostar na prevenção do DA. Para tal é essencial adotar medidas que promovam a redução da sua incidência. No decorrer do meu dia-a-dia como técnico assistente da De Heus, tenho deparado com varias situações nas explorações que promovem o DA e nas quais podemos e devemos intervir adotando medidas que promovam a redução de DA.



O que é o DA?


O deslocamento de abomaso caracteriza-se na dilatação e deslocação do abomaso para uma posição topográfica anormal. Este deslocamento deve-se sobretudo ao acumulo de gás e liquido no seu interior. Assim um deficiente esvaziamento gástrico somado a um aumento da produção de gás oriundo da digestão são os fatores chave no seu desenvolvimento. Estes dois fatores surgem com maior frequência após o parto, por ser uma fase em que ocorrem grandes mudanças no maneio alimentar e alterações fisiológicas inerentes ao parto. Habitualmente descreve-se que como sendo o maneio alimentar o principal fator predisponente, no entanto este aparenta ser apenas a ponta do icebergue, pois existem muitos outros que também promovem o seu desenvolvimento. Fatores como a predisposição genética, idade, estações do ano, alterações do sistema nervoso autónomo, maneio do período seco e de transição e a presença de doenças concomitantes são igualmente fatores promotores de DA. Todos estes influenciam de alguma forma a motilidade do abomaso e/ou o aumento da produção de gás oriundo de uma anormal fermentação ruminal. Porém os que mais facilmente e rapidamente são controláveis são: O maneio alimentar, o período seco e de transição e o surgimento de doenças concomitantes principalmente no pós-parto.

Pontos chave de controlo:

Maneio Alimentar: O maneio alimentar é o que mais facilmente se pode alterar ou ajustar. Ao longo das ultimas décadas verificou-se um aumento da produtividade tendo sido necessário aumentar a densidade energética da dieta o que originou uma maior ocorrência de DA. Em grande parte deveu-se à introdução da silagem de milho como alimento base da dieta, mais quilos de alimento concentrado e, simultaneamente, à redução dos valores de fibra para potenciar a produção leiteira. No entanto, é essencial ter níveis mínimos de fibra (FB e NDF), caso contrario, a fermentação ruminal não ocorre adequadamente. Outro fator a ter em consideração é o tamanho efetivo da partícula dos alimentos (granulometria) principalmente em dietas TMR (alimentos todos misturados em reboques misturadores). O tamanho da partícula é fundamental para potenciar a ruminação e a correta estratificação ruminal. A principal fonte de fibra de elevada granulometria é feita através da introdução de palha, sendo o seu comprimento mais importante do que propriamente a sua quantidade (varia entre 1 a 2 kg). O tamanho ideal da palha deverá ser entre 5 a 8 cm (ver foto 2). Um erro muito comum é triturar excessivamente a palha. No entanto, um tamanho excessivo também é prejudicial, pois permite as vacas escolher o alimento. Outro fator importante a ter em conta é o bolo alimentar ser homogéneo, pois caso contrario as proporções dos alimentos variam ao longo da manjedoura. Onde umas vacas comem mais silagem e ração e outras comem mais palha. Para tal, o tempo de mistura deve ser rigorosamente controlado, bem como o estado em que se encontra o reboque misturador “unifeed”. As dietas não TMR (dietas não misturadas) potenciam o distúrbio ruminal, pois há maior variação de ingestão alimentos ao longo do dia, o que implica alterações de fermentação ruminal. Um nível ideal de FB e NDF, uma adequada estrutura do bolo e um correto balanço entre fibra, energia e proteína são fatores simples mas fundamentais para o equilibro ruminal promovendo uma correta estratificação ruminal como demonstra o esquema 1.

Período seco e transição:

Durante este período a vaca leiteira sofre grandes alterações fisiológicas e de maneio alimentar, sendo fulcral equilibrar o balanço nutricional. Um desequilibro nestas fases originam problemas como aumento excessivo de condição corporal (C.C), hipocalcemia, retenção placentária, metrite e cetose. Todos estes fatores potenciam o DA. Para tal, é fundamental ter em atenção os seguintes 3 aspetos:

• No período seco é necessário obter uma condição corporal ideal ao parto e ajustar o aporte de nutrientes, principalmente, vitaminas e minerais. No momento do parto a condição corporal ideal situa-se entre os 2,75 e 3,25, numa escala de 1 a 5 (1 corresponde a vacas magras e 5 vacas gordas). Esta condição corporal é essencial para compensar as necessidades nutricionais e proporcionar um parto sem dificuldades. Lembro que vacas muito gordas tem maior tendência a desenvolver cetose e partos distócicos os quais potenciam a retenção placentária e posterior metrite. Uma condição corporal excessiva normalmente ocorre de duas formas: vacas que terminam a lactação com uma elevada condição corporal ou quando a dieta é muito rica em energia durante este período. No entanto, caso haja vacas muito magras no final da lactação é fundamental a recuperação de alguma condição corporal no período seco, de forma a fazer fase às necessidades nutricionais do pós-parto. Ao nível do balanço de nutrientes dietas muito ricas em cálcio (por exemplo dietas ricas em silagem de erva) são desaconselhadas dado que estas promoverem uma baixa mobilização do cálcio em torno do parto originando hipocalcémia clinica ou subclínica.
• Criar um período de transição. A mudança da dieta da vaca de seca para a vaca em lactação deve ser o mais gradual possível. No período seco a dieta tem um nível elevado de fibra e baixo em energia, enquanto que na dieta das vacas em lactação é o inverso estas são muito ricas em energia e mais podres em fibra. Durante as primeiras semanas de lactação o rúmen ainda não está totalmente adaptado a dietas com elevados teores de energia. Assim a criação de um lote de transição nas explorações de maiores dimensões ou o incremento gradual da dieta de lactação nas vacas no pré-parto (8 dias antes do parto) e o aumento gradual do alimento concentrado no pós-parto são boas medidas para o normal funcionamento do rumem evitando assim distúrbios na fermentação causadores do DA.
• No pós-parto é importante ter em atenção o balanço energético negativo. Este balanço negativo é originado pelas grandes necessidades metabólicas induzidas pelo inicio da lactação. Para o evitar é necessário proporcionar uma dieta equilibrada em nutrientes face às necessidades produtivas. Dietas mal formuladas ou pobres em energia promovem o balanço energético negativo. Este por sua vez promove uma elevada perda de condição corporal culminando normalmente em cetose. A cetose pode ter origem numa falta de nutrientes ou por sobrecarga hepática de triglicerídeos oriundos da elevada mobilização das reservas corporais.

Doenças concomitantes

Doenças como hipocalcémia, retenção placentária, metrite e cetose estão associadas ao desencadeamento do DA. Estas doenças características do pós-parto induzem quebra na ingestão e reduzem a motilidade gástrica, potenciando a acumulação de líquidos e gases no interior do abomaso. Esta acumulação causa a dilação do abomaso, que associada à perda do efeito de lastro do rúmen desencadeia o DA. Por isso, nesta fase é de extrema importância evitar desequilíbrios na dieta que posteriormente induzem doenças concomitantes.

Conclusão:

Todos os fatores que promovam uma correta fermentação ruminal e estimulem a motilidade gástrica contribuem para um decréscimo da incidência do DA. Com a implementação de algumas medidas podemos facilmente reduzir a sua ocorrência.
Apesar destas medidas serem trabalhosas e implicarem pequenas alterações de maneio, minimizam as perdas económicas o que aumenta o lucro anual.


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