Melhoramento da Produtividade em Rebanhos de Ovinos de Carne

04 junho 2018

A produtividade de um rebanho é normalmente expressa pelo número de crias desmamadas dividido pelo número de ovelhas presentes na exploração no período de um ano.

Tradicionalmente o borrego é negociado à unidade, podendo o seu valor sofrer alterações em função do peso médio do lote, idade, raça e época de venda.

Na atual conjuntura são vários os fatores externos e internos que condicionam a forma de trabalhar e os resultados económicos das explorações de ovinos de carne:
• Crescimento exponencial da exportação direta para mercados não tradicionais (ex: Israel). O aumento da procura de borregos para estes mercados resultou num aumento do preço ao produtor e promove uma procura mais constante ao longo do ano, ao invés das duas épocas tradicionais de maior procura interna (Natal e Páscoa).
• Alterações climáticas frequentes têm originado longos períodos de escassez de pastagem. Não obstante, muitas vezes, ainda que a disponibilidade de pastagem seja uma realidade, a mesma não é adequada a suprir as necessidades da fase produtiva do rebanho. Ambas as situações tornam necessária a suplementação alimentar dos rebanhos com alimentos concentrados e/ou forragens a fim de suprir as suas necessidades nutricionais.
• “Extinção” do Pastor Tradicional - os tradicionais Pastores, que guardavam, conduziam, afilhavam, cuidavam de certas patologias e em algumas realidades eram praticamente o único custo do rebanho estão a desaparecer. No seu lugar surge uma produção que se pode designar de “Ovelhas sem Pastor” e que se caracteriza por elevados investimentos em vedações, sementeiras, alimentos suplementares e recurso a mão-de-obra especializada como técnicos de produção animal e serviços veterinários. (colocar foto pastor tradicional?)
• Rebanhos não controlados reprodutivamente originam que ovelhas improdutivas permaneçam no rebanho “ocupando o lugar das produtivas”, não contribuindo para a rentabilidade das explorações. No atual quadro comunitário, com a diminuição de importância relativa do subsidio à ovelha, este não suporta os custos totais anuais da ovelha. A fim de aumentar a eficiência produtiva é muito importante identificar e refugar as ovelhas improdutivas.

Havendo procura de borregos, como se verifica atualmente, se os custos produtivos sobem por alguma(s) das razões mencionadas, é importante aumentar a produtividade do rebanho a fim de garantir a sustentabilidade do negócio.

Além do maneio diariamente praticado (se este for mau tudo falha), os fatores que mais influenciam a produtividade dos rebanhos são a prolificidade, a fertilidade e a mortalidade.

Prolificidade

Taxa de prolificidade = Nº de borregos nascidos / Nº ovelhas paridas

Pode ser expressa de duas formas: fração decimal (ex.: 1,4) ou percentagem (ex.: 140%)

A prolificidade está diretamente correlacionada com a taxa de ovulação e é subsequentemente influenciada pelo sucesso fisiológico da fertilização e implantação dos óvulos, gestação e parto. Por sua vez os fatores que mais a influenciam são:
• Genética das ovelhas - a raça é o fator natural que mais influencia o número de óvulos libertados por cio, assumindo como boas as práticas de maneio, nutrição, sanidade e higiene. O n.º de óvulos libertados pode variar de 1 a 4, ou ainda mais em casos extraordinários, consoante a raça maternal. Nos casos em que os rebanhos apresentam baixa prolificidade (110 a 130%), a alteração genética dos rebanhos, através da introdução de carneiros com elevada prolificidade, com o propósito de se efetuar a reposição com a sua descendência é uma opção técnico-económica bastante viável. Desta forma as borregas, filhas destes carneiros, estão geneticamente predispostas a uma maior taxa de ovulação que as suas mães.
Existem já diversos produtores em Portugal que investiram em carneiros com genética de elevada prolificidade, para cruzar com as suas próprias ovelhas, das mais variadas raças e na maioria dos casos já cruzadas, conseguindo atingir taxas de prolificidade entre 140 e 160% com filhas desses carneiros.
• Nutrição - o nível de suprimento das exigências nutricionais em energia, proteína, fibra, vitaminas e minerais, durante cada uma das fases de produção: gestação, lactação e manutenção, condiciona de sobremaneira os resultados. Recomenda-se efetuar um Flushing - suplementação nutricional por um curto período de tempo, principalmente de Energia, Vit. E e Selénio - no período de cobrição (fase produtiva com exigências nutricionais específicas), seja quando esta ocorre durante a lactação ou em manutenção, o que influencia a taxa de ovulação, a fertilização, a implantação, a gestação e o parto. Ovelhas nutridas de acordo com a fase produtiva e suplementadas no período pré-cobrição e durante a cobrição têm uma taxa de prolificidade superior.
• Intervalo de tempo entre a parição e a cobrição - num sistema de maneio reprodutivo mais intensivo a prolificidade é mais baixa. A título de exemplo, em França, criadores de uma raça de elevada prolificidade, explorada em linha pura, num sistema de 3 partos em 2 anos obtêm uma prolificidade de 200%. Em contrastes, outros criadores da mesma raça, mas num sistema de 1 parto por ano conseguem atingir 240%.
• Estação do ano - a época em que ocorre a cobrição é outro dos fatores que afetam a prolificidade. Os meses de setembro, outubro e novembro são os que mais a beneficiam.
• Idade da ovelha - obtêm-se os melhores resultados entre os 2 e 5 anos de vida.

Fertilidade

Taxa de fertilidade = (Nº ovelhas gestantes / Nº ovelhas à cobrição) x 100

Expressa normalmente em percentagem (ex.: 88%)

Os fatores que mais a influenciam são:
• Sazonalidade - a época do ano em que ocorre o período de cobrição tem uma grande influência na taxa de fertilidade da maior parte das raças, sendo mais elevada quando o período de cobrições ocorre entre setembro e novembro. Para quem tenha definido no seu maneio épocas de cobrição que ocorram entre fevereiro e junho, a utilização de técnicas auxiliares reprodutivas podem ser uma boa alternativa, sendo possível atingir resultados superiores à época de final de verão / outono.
• Técnicas auxiliares reprodutivas - a utilização de implantes de melatonina ou a introdução de esponjas hormonais, quando cumprindo os respetivos protocolos, podem ser práticas muito úteis na melhoria dos resultados reprodutivos como a taxa de fertilidade e prolificidade.
• Condição corporal aquando da cobrição - embora este fator condicione a prolificidade, tem uma maior influência sobre a fertilidade. É condição essencial para conseguir uma boa taxa de fertilidade que o rebanho (ovelhas e carneiros) esteja a ganhar peso no período pré-cobrição e durante a cobrição. Nos casos em que os rebanhos estejam numa condição corporal fraca, efetuar um Flushing é uma excelente opção para melhorar a taxa de fertilidade. Este poderá ser realizado permitindo o acesso dos animais a uma boa pastagem e fornecendo baldes vitamínicos ricos em Vit. E + Selénio, ou através da administração de alimentos concentrados (tacos/pellets) formulados para o efeito. Para que o Flushing surta efeito é importante que o rebanho se encontre sanitariamente em boas condições.
• Carneiros - por vezes esquecidos, têm um papel fundamental. Se não estiverem funcionais, os resultados podem ser desastrosos. O maneio praticado com os carneiros, intitulado de Efeito Macho (permanência longe das fêmeas nos períodos que não são de cobrição), quando conseguido, e juntamente com uma boa relação carneiro por ovelhas, tem um efeito muito positivo na taxa de fertilidade, uma vez que estes induzem o cio quando reintroduzidos no rebanho. Efetuar exames andrológicos aos carneiros, previamente ao período de cobrição, é uma prática muito importante, pois por vezes alguns dos carneiros estão estéreis ou subferteis, falseando o n.º de carneiros aptos.


Mortalidade dos Borregos

Taxa de Mortalidade dos Borregos = Nº borregos mortos até ao desmame / Nº borregos nascidos

Os fatores de maior influência são:
• Peso ao nascimento – altamente condicionado por fatores genéticos e por fatores nutricionais, sendo importante garantir a correta e equilibrada alimentação das mães durante o período de gestação. A viabilidade dos borregos é reduzida quando nascem muito pequenos. Já quando nascem demasiado grandes podem ter problemas de parto, colocando em risco a sua vida assim como a da sua mãe, se não forem assistidos a tempo.
• Toma do colostro - uma vez que os borregos nascem desprovidos de imunidade é da máxima importância que a recebam de forma passiva através da ingestão do colostro, com elevadas concentrações de imunoglobulinas. Tanto a permeabilidade das paredes intestinais do borrego como a concentração de imunoglobulinas no leite, diminuem muito rapidamente nas primeiras horas após o parto. É crucial a ingestão do colostro, e em quantidades significativas, nas primeiras horas de vida. A vitalidade com que os borregos nascem, influenciada principalmente pela genética e pelo parto em si, tem grande influência no tempo que demora a ocorrer a 1ª mamada. Importa também que as mães estejam vacinadas, de forma a conseguirmos que os borregos ganhem imunidade para as principais patologias que os afetam.
• Afilhamento – são vários os fatores que afetam a aceitação dos filhos por parte da ovelha, sendo os principais a prolificidade, as capacidades maternais, a vitalidade do borrego e condições em que ocorre o parto. Nos partos simples, tendo o borrego boa vitalidade, a taxa de sucesso do afilhamento é muito alta. Quando ocorrem partos duplos ou triplos é muito importante que estejamos perante uma genética com capacidades maternais bem desenvolvidas e borregos com vitalidade, bem como garantir as condições de espaço em que ocorre o parto e a vigilância rotineira ao rebanho.
• Nutrição – tem grande influência na taxa de mortalidade uma vez que afeta o parto, o peso dos borregos ao nascimento e a produção de leite. Quando a produção de leite não é suficiente para satisfazer as necessidades do borrego para um normal desenvolvimento, a suplementação dos borregos com rações adequadas em comedouros seletivos é uma boa opção. Nos casos de não afilhamento ou pouco leite materno uma solução poderá ser o aleitamento artificial.
• Patologias entéricas e respiratórias – certamente uma das maiores causas de mortalidade. Todos os fatores acima descritos, assim como as condições higio-sanitárias, vacinações e desparasitações, têm grande influência no aparecimento ou não de doenças e na taxa de sucesso da sua cura.

Produtividade numérica de três possíveis realidades

Tipo de produção

Exemplo para 100 ovelhas)

Extensivo - com pouco investimento

Extensivo - com algum investimento genético, alimentar, instalações e mão-de-obra

Semi-intensivo – com muito investimento genético, alimentar, instalações e mão-de-obra

N.º partos / ano

1

1,5

1,5

Tx Fertilidade

80

85

90

Tx Prolificidade

110

150

200

Tx Mortalidade

7,5

8

10

N.º borregos desmamados

81

176

243



Conclusão

A raça, em associação com um bom maneio nutricional, reprodutivo e higio-sanitário são os fatores que mais influenciam a produtividade. Como demonstra o quadro acima, a produtividade de um rebanho poderá variar entre 0,81 e 2,43 por ovelha, o que significa que, para produções tipificadas pelo primeiro exemplo do quadro é ainda possível triplicar a produtividade. Não sendo a produtividade diretamente proporcional à eficiência produtiva, tipos de produção com maior produtividade tendem a uma melhor eficiência produtiva e com isso melhor margem de lucro.

Os dados permitem-nos “sonhar” com melhores resultados económicos uma vez que, no geral, em Portugal, ainda estamos longe de atingir os melhores resultados zootécnicos comprovadamente possíveis, e será obrigatoriamente esse o caminho da nossa produção sustentável.

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