Pontos Chave no 1º Mês de Vida das Vitelas

06 junho 2018

A sustentabilidade de uma exploração de leite, bem como o sucesso da reposição por animais recriados na própria exploração depende do maneio das Vitelas no 1º mês de vida.

O maneio das vitelas nos primeiros dias de vida é muitas das vezes negligenciado. Este descuido contribui para o aumento da mortalidade e favorece o aparecimento de doenças. Se não se contestam as consequências económicas negativas da mortalidade, já as consequências económicas das doenças no período pós-natal, cuja visibilidade do ponto de vista produtivo está separada por um período de recria de cerca de 2 anos, são muitas vezes menosprezadas, apesar de acarretarem graves perdas produtivas e, por conseguinte, económicas.

As vitelas de hoje são as vacas de amanhã, pelo que, uma recria saudável constitui uma base de qualidade para qualquer exploração leiteira. É fundamental proporcionar às recém-nascidas, logo desde o 1º dia, elevados índices de saúde, que promovam um crescimento ótimo de forma a obtermos novilhas saudáveis ao parto e com uma condição corporal adequada. Conseguir este objetivo, traduz-se do ponto de vista económico, num elevado retorno do investimento (ROI), o que é amplamente reconhecido por todos, mas cujo caminho para o atingir, apesar de simples é longo e muitas vezes renegado para 2º plano.

De forma sucinta são de seguida apresentadas regras e procedimentos que deverão ser adotados pelos produtores no processo de recria de futuras vacas leiteiras.

Pré-Parto - Preparação prévia do viteleiro

Os viteleiros podem ser individuais ou coletivos. Importa que antes de receberem os recém-nascidos sejam:

1. Limpos, Lavados, Secos e Desinfetados;
Viteleiros individuais são mais facilmente preparados e reduzem a propagação de doenças infeciosas.

2. A cama deve ser preparada para receber a vitela de forma a que esta se mantenha limpa, seca e confortável;
Uma cama feita à base de palha (figura 1) ou serrim seco e isento de odores intensos cumpre os requisitos pretendidos.

3. Devem ser verificadas e evitadas as correntes de ar. Mais do que o frio, são as correntes de ar e a humidade umas das principais causas ambientais de patologias respiratórias.

Peri-Parto - Durante e após o parto

1. Idealmente deverá existir um local destinado exclusivamente aos partos – maternidade - cujas condições de higiene e sanidade descritas para os viteleiros também deverão ser escrupulosamente cumpridas;

2. Se o parto necessitar de ajuda humana, deverá evitar-se colocar os dedos na boca e narinas da vitela para a estimular a respirar. O recém-nascido vem de um meio estéril e por norma as mãos do operador estão conspurcadas constituindo uma via direta de contaminação de organismos patogénicos para o animal. Para estimular o inicio da respiração deverá ser realizada uma massagem vigorosa da região torácica com o neonato na vertical e com a cabeça para baixo, o que também facilita a drenagem de mucos;

3. Com um pano ou toalha limpa devem-se retirar todos os resíduos de placenta e sujidade da superfície da vitela;

4. O cordão umbilical deverá ser desinfetado com uma solução desinfetante adequada (por exemplo uma solução iodada). Procedimento muito importante para evitar infeções bacterianas.

Maneio alimentar no primeiro dia e no primeiro mês

Devido ao tipo de placenta que os bovinos têm os fetos não recebem quaisquer anticorpos (Imunoglobulinas) por parte da mãe durante a gestação, razão pela qual nascem completamente desprotegidos. A Imunidade só é adquirida, de forma passiva, após o nascimento pela ingestão do colostro. Daí a importância da administração do mesmo.

1. Durante muitos anos promoveu-se a ingestão do colostro nas primeiras 48 horas, mas hoje constata-se que os resultados práticos são substancialmente melhores se esta ingestão ocorrer no período imediatamente após o parto.
   o A primeira ingestão do colostro deve ser feita nas primeiras 2 horas de vida;
   o No final das primeiras 6 horas o recém-nascido deverá ter ingerido entre 2 a 2.5 litros de colostro;
   o Nas primeiras 12 horas de vida a vitela deve ingerir 4 a 6 litros de colostro em tomas máximas de 2 litros de cada vez;
   o O consumo no primeiro dia não deve ficar abaixo dos 10% do peso corporal do vitelo, podendo atingir os 20%.
A obrigatoriedade do cumprimento destes procedimentos prende-se com dois fatores fisiológicos incontornáveis:
   • As células da parede intestinal só são capazes de absorver as imunoglobulinas durante as primeiras horas de vida do vitelo. A sua capacidade de absorção é máxima logo após o nascimento, baixa consideravelmente até as 12 horas e é praticamente nula ás 24 horas;
   • Os níveis de imunoglobulinas no colostro começam a aumentar 9 dias antes do parto e atingem o seu máximo 2 horas após o parto. São mais elevados na primeira ordenha e vão diminuindo gradualmente entre ordenhas. Se por qualquer razão se tiver que ordenhar uma vaca antes do parto o colostro deverá ser guardado e conservado para posterior administração ao vitelo.

2. Quer para a administração do colostro quer para a subsequente administração de leite deverão ser utilizados bebrões, baldes com tetinas, ou alimentadores automáticos colocados de forma a permitir que durante a ingestão de leite o vitelo permaneça com a cabeça ligeiramente levantada e esticada. Aos equipamentos utilizados deverá ser realizada uma manutenção higiénica periódica - devem ser sempre lavados com água após cada alimentação e desinfetados uma vez ao dia;

3. Se não for utilizado o leite de vaca, o leite de substituição (mais recomendável por questões higio-sanitárias e de perfil nutricional) deverá ser altamente palatável e de elevada digestibilidade. 

4. Os animais deverão ter SEMPRE água limpa e fresca à disposição, assim como feno ou palha de excelente qualidade;

5. A partir dos primeiros dias de vida devem ser fornecidos “ad libitum” alimentos concentrados (starters) de elevada palatibilidade e especificamente formulados para a fase produtiva a que se destinam (encontrará alimentos com este perfil no Programa De Heus de recria de novilhas KALIBER, o qual será brevemente apresentado na Revista “Ruminantes”). Estes alimentos, além de promoverem o crescimento da vitela constituem também importantes estimuladores do desenvolvimento das papilas ruminais.

Cuidados permanentes

1. Manter as camas secas e com baixos teores de material fecal – manutenção periódica;

2. Observar diariamente e várias vezes ao dia (se possível) o estado de alerta dos vitelos. Assim demonstrem estar mais esmorecidos deve-se de imediato medir a temperatura. Em caso de temperaturas acima de 39,5°C ou abaixo de 37,5°C o veterinário assistente deverá ser de imediato contactado de modo a decidir a melhor terapêutica a administrar e/ou agendar consulta;

3. Quando em viteleiros coletivos, e em caso de manifestação de doença, a vitela enferma deverá de imediato ser retirada para um viteleiro individual com o objetivo de evitar que a doença, que pode ter causa infeciosa, se propague.

Conclusão

Com a implementação destas medidas, simples e práticas, evitam-se muitas despesas, tais como:
• Medicação e serviços veterinários.;
• Compra de novilhas ou vacas para a manutenção do efetivo leiteiro;
• Redução das perdas do Pool genético investido na “inseminação”;

Além disso, contribuímos para:
• Melhor arranque no desenvolvimento e crescimento das vitelas;
• Aumento da eficiência alimentar;
• Potenciar maior crescimento da fase de puberdade;
• Novilhas saudáveis ao parto;
• Vacas de leite mais produtivas.

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