A Lactação Começa na Fase Seca e Não no Parto

04 junho 2018

O período seco não deve ser encarado como o final de uma lactação, mas sim como o início da lactação seguinte.

A nutrição e maneio da vaca seca são grandes desafios que se colocam à produção de leite atual. A correta alimentação e o maneio adequado durante esta fase são fatores fundamentais para promover a diminuição dos problemas ao parto e a incidência de distúrbios metabólicos do início da lactação. Hipocalcémia, retenção placentária, metrite, cetose, fígado gordo, deslocamento de abomaso e falhas reprodutivas são problemas frequentes em muitas explorações e têm um fortíssimo impacto negativo na economia da exploração.

O período seco tem como principais objetivos permitir a recuperação do rúmen, das reservas metabólicas e do tecido mamário, do desgaste sofrido na lactação anterior e preparar a vaca para a lactação seguinte.

MANEIO DA VACA SECA – ASPETOS IMPORTANTES A CONSIDERAR:

• O período seco deve estar compreendido entre as 6 e as 8 semanas pré-parto. Um período seco inferior a 45 dias e superior a 60 dias origina uma menor produção na lactação seguinte. Períodos mais curtos não permitem a recuperação do tecido mamário, e períodos mais longos tendem a resultar em vacas com excesso de condição corporal;
• Após a secagem as vacas secas devem ser separadas do efetivo em lactação (mas sem perder contacto com estas) e mantidas num espaço próprio;
• As vacas devem ser secas com uma condição corporal compreendida entre os 3 e os 3,5 e devem ser mantidas neste estado durante todo o período de secagem. Vacas que engordem demasiado durante este período são mais suscetíveis a deslocamentos de abomaso, edema mamário, cetose, partos distócitos e outros problemas gerais de saúde. Também mostram uma redução do apetite nas duas primeiras semanas de lactação o que pode agravar o défice energético com os consequentes problemas de saúde e produtivos. Por outro lado, a investigação também refere que alimentar vacas para perderem peso durante o período seco predispõem a ocorrência de fígado gordo, cetose e outros distúrbios metabólicos, devido à sobrecarga hepática originada pela mobilização das reservas corporais;
• É muito importante que o alojamento das vacas secas tenha o espaço suficiente, e seja confortável e mantido em boas condições de higiene. O exercício estimula a ingestão de matéria seca e o uso dos músculos ajuda na remoção dos corpos cetónicos;
• Monitorizar com regularidade e tratar quaisquer problemas de locomoção e cascos;
• Evitar situações de stress. A recolocação dos animais, a perda de contacto com o restante efetivo e as mudanças bruscas na alimentação são dos principais fatores causadores de stress;

NUTRIÇÃO E ALIMENTAÇÃO DA VACA SECA

A nutrição da vaca seca tem sido, nas últimas décadas, uma área muito ativa de investigação. Um programa nutricional inadequado irá comprometer o sucesso da lactação seguinte. As nossas recomendações assentam em dietas de baixa densidade energética e níveis adequados de proteína digestível com componentes iguais àqueles da dieta do lote de produção.

Recomendações gerais:

• Oferecer uma dieta equilibrada em energia e proteína digestível que previna o aumento excessivo da condição corporal ao parto, mas que permita cobrir as necessidades da vaca e o crescimento do vitelo;
• Vacas com condição corporal de 3 a 3,5 devem ter uma ingestão de matéria seca de 11 a 12 kg. A otimização da ingestão de matéria seca é um ponto crítico para o sucesso de todo o período de transição;
• Utilizar concentrados específicos para vacas secas de pendor aniónico que permitam o aporte dos nutrientes necessários, nomeadamente os minerais e as vitaminas, e assegurar o balanço anião-catião adequado. Os estudos mostram que a utilização de dietas aniónicas permite baixar o pH da urina e do sangue, aumentar a mobilização e a absorção de cálcio, aumentar o nível de cálcio no sangue e diminuir a incidência de hipocalcemias;
• Utilizar forragens de excelente qualidade, palatáveis e sem vestígios de contaminação fúngica. A silagem de milho e palha são forragens com baixos níveis de potássio o que ajuda na manutenção de um adequado balanço anião-catião;
• Evitar a seleção do “bolo TMR” – Feedsorting;
• Assegurar o acesso livre, contínuo e sem competição à manjedoura;
• Monitorizar cuidadosamente a ingestão de matéria seca e ter atenção aos detalhes;

Alimentação única durante todo o período de vaca seca

A nossa investigação mais recente evidencia as vantagens da utilização de uma dieta única em todo o período de vaca seca ao invés da habitual divisão em duas fases (vacas secas e pré-parto).

Vantagens deste programa:

• Redução do trabalho do produtor e facilitação da tarefa de alimentação;
• Maior consistência na dieta oferecida às vacas;
• Eliminação do stress provocado pelas deslocações dos animais e mudanças de lote;
• Melhoria no controlo da condição corporal;
• Aumento do nível de ingestão;
• Diminuição dos distúrbios metabólicos no pós-parto e melhor arranque da lactação.

CONCLUSÃO

O sucesso económico de uma exploração leiteira passa, inevitavelmente, pelo sucesso do período seco. O cumprimento rigoroso das boas práticas de maneio, bem como a utilização de uma dieta única, equilibrada nutricionalmente e aniónica permite a recuperação do tecido secretor, a redução dos distúrbios metabólicos pós-parto e a diminuição da incidência de partos distócitos potenciando a produção de leite na lactação seguinte.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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