Testemunho de Domingos Guerreiro

03 mar. 2026

Com um percurso marcado por resiliência e ligação ao campo, Domingos Guerreiro tem vindo a fazer crescer uma exploração de ovinos de leite na zona de Picoitos, concelho de Mértola, no extremo sul do país. Nesta entrevista, no final de novembro, falou-nos sobre o maneio, os desafios e as perspetivas de crescimento da sua exploração.

Domingos Guerreiro
Ovinos de leite - Mértola, Portugal

Domingos Guerreiro cresceu entre ovelhas e montados, num Alentejo onde a agricultura era parte indissociável da vida familiar. Filho de um agricultor dedicado aos ovinos de carne em sistema extensivo, cedo aprendeu o ritmo do campo, equilibrando os estudos com o trabalho ao lado do pai. Concluiu o 12.º ano aos 17 anos e manteve-se na exploração até aos 24, altura em que dificuldades económicas o obrigaram a procurar novos caminhos. Fez da necessidade oportunidade: passou 17 verões a vender bolas de Berlim na praia e, fora da época balnear, integrou a padaria da sua mulher, onde permaneceu 14 anos.

O regresso à agricultura chegaria apenas em 2016, já com 34 anos, quando surgiu a oportunidade de se instalar por conta própria. Regressou às origens com ovinos de carne, adquirindo os animais ao pai e consolidando gradualmente a área explorada, hoje com cerca de 600 hectares. Formado na Escola Agrícola de Serpa, decidiu avançar para uma atividade que considera mais sustentável e previsível em termos de rendimento. Atualmente, gere um efetivo que recentemente rondava os 850 animais — entre 180 e 200 destinados à carne e o restante orientado para a produção de leite — ao qual se juntaram, em novembro passado, mais 239 fêmeas Assaf para reforçar a produção.

Jovem agricultor no extremo sul do país, Domingos reconhece que o seu percurso desperta admiração. Mas, acima de tudo, atribui o caminho percorrido à garra e ao gosto genuíno pelo que faz.

Porque decidiu apostar nas ovelhas de leite?

Sempre tive essa intenção. Fiz o curso de técnico agrícola em Serpa e um projeto de aprendizagem nesse setor. Quando me instalei, segui pelo leite porque considero mais rentável: no final do mês há receita certa. Só com carne, é mais difícil — às vezes só se ganha a cada 4 ou 5 meses.

Esq. para a dta.: Sérgio Henriques (De Heus), Domingos e Maria Guerreiro, Alexandre Biléu (De Heus), António Martins (Rações da Vila) e José Miguel (empregado da exploração)

Quantos animais tem atualmente e como se distribuem entre carne e leite?

Até ontem tínhamos cerca de 850 animais, entre os meus e os de um sócio. Destes, entre 180 e 200 são Merino destinados à carne e o restante é orientado para leite. Além disso, acrescentámos ontem 239 fêmeas Assaf para reforçar a produção leiteira.

Quantas pessoas trabalham na exploração e como se organizam nas diferentes tarefas?

Somos três — eu, a minha mulher (Maria) e o empregado, o Zé Miguel. A ordenha é feita pelos três, e depois eu e o Zé tratamos dos trabalhos de campo: sementeiras e manutenção das áreas

Que culturas fazem?

Aveia, trigo e triticale, normalmente para consumo próprio do rebanho.

Quais são as principais fontes de rendimento?

Leite e borregos. Os borregos representam cerca de 40%; o leite, 60%.

Qual é o período de ordenha?

Das Lacaune, entre setembro a julho.Com as Assaf, temos o objetivo de ordenhar até mais tarde, porque o período de lactação é
maior.

O maneio é tradicional?

Sim. Elas vêm da pastagem para a ordenha e regressam depois aos parques. Às vezes, há suplemento a meio do dia.

Tem alimento suficiente para o rebanho?

Nos anos de boa chuva, sim. Nos outros, temos de comprar. Toda a ração composta é comprada; só produzimos fenos e pastagens naturais.

A ração é dada apenas na sala de ordenha?

Sim, praticamente toda. A distribuição é igual para todas.

Quanto comem?

As minhas Lacaune comem entre 1,1 kg e 1,3 kg/dia. Depende do que encontram no campo.

E quanto produzem?

Em média, entre 1 litro e 1,1 litros/dia. No início da lactação algumas chegam aos 1,2–1,3 litros.

No que respeita à alimentação dos animais, dispõe de apoio técnico?

Sim. Conto com o apoio do técnico da De Heus, o engenheiro Sérgio Henriques, que é responsável pelo fornecimento da ração da marca.

Há quanto tempo trabalha só com Lacaune?

Desde 2016, embora ainda haja vestígios dos antigos cruzamentos.

 

Domingos Guerreiro gere uma exploração de ovinos de leite na zona de Picoito, concelho de Mértola. Atualmente, gere um efetivo ovino leiteiro de 620 Lacaune + 239 Assaf, para além de 180 ovelhas Merino.

Como é o maneio no verão?

Em julho e agosto não ordenhamos. Fazemos a secagem, as ovelhas vão para o restolho e em agosto voltam para o pré-parto.

Quantos carneiros tem?

19, embora o ideal fossem cerca de 30.

Quando entram nos lotes?

Normalmente a 1 de abril, para partos a partir de setembro.

Têm alimentação especial?

Quando estão separados, recebem pasto e suplemento; quando estão com as ovelhas, comem a mesma ração.

Quanto tempo ficam os borregos com as mães?

40–45 dias.

Ordenham durante esse período?

Sim, mas só uma vez por dia. Aproveitamos o leite das 12 horas em que estão separados.

Qual é a taxa de mortalidade nos borregos?

À volta de 5%, muito devido aos partos duplos, que são cerca de 50%.

Com que idade são vendidos os borregos?

Aos 40–45 dias. As fêmeas ficam para recria; os machos vão para um engordador que exporta para Israel.

Quantos dias por ano ordenha?

Cerca de 210 dias.

Quantos litros produz por lactação, em média?

À volta de 200 litros por ovelha.

A quem vende o leite?

A três queijarias. São empresas pequenas e prefiro distribuir para reduzir riscos. Todas compram exclusivamente o meu leite.

 

Exemplares do efetivo Lacaune

O leite é DOP Serpa?

Estas queijarias não produzem DOP, mas penso que a minha produção poderia ser certificada.

Que investimentos recentes fez?

Aumentei o rebanho e construí mais 650 m² de área coberta para estabulação parcial e proteção dos borregos.

Quais são as principais dificuldades da região?

Dependência da chuva e das pastagens. Em algumas propriedades há falta de água e temos de transportar com cisterna.

Pensa instalar tecnologia de controlo individual?

Para já, não. Exige mão-de-obra que não tenho.

 

Exemplares do efetivo Assaf

Que cuidados têm no pré-parto e no pós-parto?

Aproximadamente 20–25 dias antes do parto juntamos as ovelhas para lhes fornecermos uma alimentação mais controlada. No pósparto acompanhamos mamites, ingestão, e o desenvolvimento dos borregos.

O setor está favorável?

Sim, há muita procura de leite. As três queijarias poderiam produzir mais 40–50%, se tivessem mais matéria-prima.

Como imagina a exploração daqui a 5 ou 10 anos?

Com animais mais selecionados e maior produção por cabeça. Talvez introduza mais Assaf. Não penso instalar queijaria.

 

 

 

 

Exemplares do efectivo Assaf

DADOS GERAIS DA EXPLORAÇÃO

Área ±600 ha
Trabalhadores 3
Efetivo de leite 620 Lacaune + 239 Assaf
Efetivo de carne 180 Merino
Sala de ordenha 16 + 16 pontos
Duração da ordenha ±2h15
Horários das ordenhas 4h30 e 15h
Ovelhas em ordenha ±400
Produção anual estimada 80.000 litros
% gordura leite 8,2
% proteína leite 5,6
Longevidade/ovelha 6 a 7 lactações
Primeira cobrição 7 meses

 

Testemunho de Domingos Guerreiro

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