Testemunho de João Paulo Crespo
Começou numa herdade sem eletricidade e com uma sala de ordenha ligada a um trator. Mais de três décadas depois, a Fertiland tornou-se uma referência na produção de leite de ovelha em Portugal. Nesta entrevista, João Paulo Crespo explica como construiu um modelo assente na escala, no pastoreio, na genética e na gestão com base de dados.
Ovinos de leite - Vaiamonte, Portugal
A ORIGEM DE UM PROJETO CONSTRUÍDO NO TERRENO
Na Herdade dos Esquerdos, em Vaiamonte, no Alentejo, a Fertiland afirma-se hoje como uma referência na produção de ovinos de leite em Portugal, combinando escala, tecnologia, pastoreio e melhoramento genético.
A exploração gere uma estrutura de grande dimensão, com cerca de 350 hectares, 2.400 ovelhas adultas da raça Assaf, 70 carneiros e 600 fêmeas jovens de reposição. A equipa é constituída por 10 trabalhadores. No total, integra 52 hectares de regadio com dois pivots, 258 hectares de prados permanentes de sequeiro, 25 hectares de culturas forrageiras anuais e uma barragem própria com capacidade para 500.000 m³. A produção anual ronda os 950.000 litros de leite, com médias de 462 litros por ovelha por ano e 2.800 litros por hectare.
Mas a Fertiland vai além da produção leiteira. Numa lógica de integração e complementaridade, João Paulo Crespo desenvolve também atividade no mercado de sementes forrageiras, através da marca Clever Clover, e na área da pecuária de precisão, com o software Clever Flock, uma ferramenta desenvolvida internamente para apoiar a gestão produtiva, reprodutiva, sanitária e genética do efetivo.
É nesta articulação entre tradição pastoril, dimensão empresarial e gestão orientada por dados que assenta o modelo da Fertiland. Foi para conhecermos melhor este percurso, a visão do projeto e os desafios do setor que conversámos com João Paulo Crespo
Como começou o seu percurso no setor agrícola?
O meu percurso começou aqui, na Herdade dos Esquerdos, numa altura em que a exploração podia ter tido outros destinos, nomeadamente o arrendamento ou a venda. A minha mãe herdou a herdade, mas não tinha capacidade nem conhecimento para a gerir. Eu tinha 19 anos recém-cumpridos e agarrei a exploração, em 1983. Em 1985 surgiram as ajudas da União Europeia para os projetos e foi isso que me permitiu ficar.
João Paulo Crespo, proprietário e gerente proprietário da exploração ovícola Fertiland, na Herdade dos Esquerdos, em Vaiamonte, Alentejo
Quando surge a Fertiland?
A Fertiland surge depois do início da exploração, que estava em meu nome individual como jovem agricultor, e depois da Fertiprado. A produção de ovinos de leite tinha começado em janeiro de 1990 e, durante 29 anos, esta atividade esteve integrada no Grupo Fertiprado. Em janeiro de 2019, a exploração autonomizou-se. Mantendo o mesmo espírito de integração e complementaridade, passámos também a atuar no mercado das sementes forrageiras com a marca Clever Clover e regressámos à pecuária de precisão com o software Clever
Flock.
Como começou a exploração de ovinos de leite?
A exploração começou com 200 ovelhas. No dia 7 de janeiro de 1990 entraram 180 ovelhas, todas malatas de primeira barriga, manchegas, metade cruzadas com Milchschaf Friesian e metade cruzadas com Awassi. Entraram para uma exploração sem experiência nenhuma neste setor, com uma sala de ordenha ligada a um gerador, que por sua vez estava ligado a um trator. A exploração nem sequer tinha eletricidade. Nessa altura não havia praticamente informação no mercado sobre produção de leite de ovelha. Havia a ideia de que um rebanho de ovelhas leiteiras nunca poderia ultrapassar os 50 ou 100 animais, porque era isso que se via nas zonas tradicionais de produção. Hoje percebemos o contrário: as explorações que subsistem são precisamente as que têm dimensão, escala e capacidade para incorporar tecnologia.
Há quanto tempo trabalham com um efetivo desta dimensão?
Há seis ou sete anos que estamos com cerca de 3.000 ovelhas. Neste momento o efetivo está estabilizado. Em termos de estrutura, temos 2.400 ovelhas adultas da raça Assaf, 70 carneiros e 600 fêmeas jovens de reposição. Além disso, todos os animais estão genotipados, num processo iniciado há dois anos e ainda em consolidação, com a parentalidade conhecida em cerca de 90% do rebanho.
João Paulo Crespo conta como construiu um modelo de exploração assente na escala, no pastoreio, na genética e na gestão com base em dados.
UMA EXPLORAÇÃO GERIDA COM LÓGICA INDUSTRIAL
Como se gere uma estrutura desta dimensão?
A exploração dispõe de um ovil com 3.000m² e 600 metros de frente de cinta de alimentação, além de outros pavilhões de maneio e armazém com cerca de 2.000 m². A ordenha é feita numa sala GEA com 60 posições, medição eletrónica, retiradores automáticos de tetinas e saída rápida, com uma produtividade de cerca de 450 ovelhas por hora, operada por três a quatro pessoas. É uma estrutura de componente biológica, mas que se gere de forma mais industrial do que agrícola. Há processos muito bem definidos, protocolos, exigências de rotina que têm de ser cumpridos. Isso é o que permite que uma exploração com 3.000 ovelhas possa ser gerida da mesma forma que uma com 5.000 ou 6.000.
Quantas pessoas trabalham aqui?
Temos uma equipa de 10 trabalhadores, sete homens e três mulheres. A qualidade da equipa, o conhecimento dos processos e a motivação para crescermos são os verdadeiros motores do nosso crescimento. O Igor é um grande conhecedor do sistema. È o líder operacional da equipa. Partilhamos as estrategias, os desafios e os momentos críticos que também existem. São as pessoas que fazem as coisas e quando o resultado é bom, foi certamente feito por quem tem valor.
A cultura da empresa é marcada por muita conjugação de esforços entre as diferentes áreas. Depende das épocas do ano.
O VALOR DOS DADOS NA GESTÃO DIÁRIA
Uma estrutura assim exige muitos dados e muita informação?
Sem dúvida. Aqui passa-se exatamente isso. Quando fiquei com a empresa totalmente minha, em 2019, um dos primeiros investimentos que fiz foi na sala de ordenha, com medidores automáticos, retiradores automáticos e saída rápida, e nas cintas de alimentação, precisamente para poder ter mais elementos de gestão. Paralelamente, reconstruímos o software que já existia, o Ovigest, que deu origem ao Clever Flock. Neste momento, temos registados mais de 1,9 milhões de dados de produção, reprodução e sanidade, acumulados ao longo de 25 anos, e o histórico produtivo, reprodutivo e genealógico de mais de 35 mil animais que passaram pela exploração. Sem dados não há gestão, e foi essa consciência que permitiu à exploração evoluir, melhorar o controlo de gestão, reforçar a seleção genética e eliminar aquilo que não interessa.
O CLEVER FLOCK COMO FERRAMENTA DE PECUÁRIA DE PRECISÃO
O que é e como funciona o Clever Flock?
O Clever Flock é um software online, com acessos configurados conforme o perfil do utilizador. Tem vários níveis de utilização, desde os mais simples aos mais sofisticados, e funciona também em versão Android, o que é essencial para articular com os bastões de descarga de dados e com a leitura eletrónica.
Há pessoas aqui na exploração que usam o sistema apenas para registo de pesos. Outras usam-no para separar animais automaticamente por critérios previamente definidos: dias após o parto, existência de doença, incidência de peeira, atraso reprodutivo, entre outros. As mangas de separação e pesagem automática recebem ordens através do Android e fazem esse trabalho com base na identificação eletrónica dos animais. Na prática, quase não há erro humano na recolha de dados.
E como se tira proveito dessa enorme quantidade de informação?
O software permite organizar, selecionar, filtrar e trabalhar os dados. Por exemplo, conseguimos identificar de imediato que animais não pariram há mais de um ano ou há mais de 400 dias — situações que, em muitos rebanhos, passam despercebidas. Desde que o programa seja usado de forma consistente e contínua, e não como um hobby em que uns dias se regista e outros não, os mapas de alerta e de alarme funcionam automaticamente. Tudo isso aparece tanto no computador como no telemóvel. É essa consistência que transforma dados em gestão.
O Clever Flock é uma ferramenta de pecuária de precisão, disponível na forma de um software online. Com acessos configurados conforme o perfil do utilizador, tem vários níveis de utilização. Funciona também em versão Android, essencial para articular com os bastões de descarga de dados e com a leitura eletrónica.
Quando toma decisões sobre genética, renovação do efetivo ou refugo, baseia-se mais na observação ou nos números?
Grande parte da decisão é baseada nos números, não é a olhar para os animais. Um dos critérios é a produção de leite, mas não só. Há várias tipologias de animais e várias formas de serem bons ou maus. Temos animais que começam a lactação nos 2,7 a 3 litros por dia e mantêmse estáveis durante meses. Outros comportam-se de forma diferente. Sem dados, isto não se consegue ver. A pecuária de precisão é isso mesmo: decisões com base em critérios objetivos.
Consegue quantificar quanto já lhe deu a ganhar esse sistema de gestão?
É difícil quantificar exatamente, mas posso dizer que é essencial para manter a exploração. Sem gestão de informação, uma estrutura desta dimensão entraria no caos. Se olharmos para 3.000 ovelhas como animais indiferenciados, sem saber quando pariram, se emprenharam, quanto leite deram ou durante quantos dias produziram, isso só pode levar à ruína. A pecuária de precisão permite melhorar os ciclos reprodutivos, reduzir a incidência de doenças, reforçar a genética e tomar decisões fundamentadas. É isso que sustenta o desempenho da exploração.
O Clever Flock está disponível para outros produtores?
Está, sim. Não é uma arma secreta. Já temos vários clientes e cerca de 6.000 animais registados que não são nossos. É um software feito por produtores, para produtores, com linguagem e critérios adaptados à realidade da produção. Funciona num sistema de aluguer, com preço ajustado ao tamanho do rebanho, e damos assistência, sobretudo online, através do Teams e de outras plataformas. Fazemos também a instalação nas explorações e precisamos, naturalmente, de recolher informação de base, como os dados do IFAP e outros elementos necessários à parametrização.
PRODUÇÃO EM PASTOREIO: A BASE DO MODELO
As ovelhas em produção andam sempre no campo?
Sempre. E dão muito leite. Na Fertiland acreditamos que a produção em escala é compatível com regimes de pastoreio. Aliás, defendemos que a presença dos animais no campo traz benefícios ao bem-estar animal, ao solo e ao ecossistema.
Os animais em produção passam quase todo o tempo no campo, com exceção de noites de temporal ou períodos de chuva persistente. São animais de campo e é no campo que gostam de estar. Utilizamos inclusivamente os dois pivots da exploração em pastoreio, apesar de estarem distantes da sala de ordenha, o que obriga as ovelhas a caminhar mais de 2 km por dia, para além do trajeto normal de pastoreio.
Qual é o segredo para conjugar pastoreio e elevada produção?
O segredo é não esquecer que a ovelha é um ruminante, um animal que evoluiu para comer erva e pasto de qualidade. Apostamos na qualidade das ervas e das pastagens, porque isso permite produzir leite e carne com base no aproveitamento do recurso e devolver ao solo, através dos dejetos, nutrientes importantes.
Mas isso não exclui o melhoramento genético. Pelo contrário. Temos selecionado animais não apenas pela produtividade, mas também pela morfologia, pela qualidade do ubre e pela agilidade. Num sistema destes, um animal não pode ser muito produtivo e ao mesmo tempo não ter capacidade para caminhar e viver em campo.
Com regadio e boas forragens verdes é possível produzir leite todo o ano?
Não só com regadio. Pode-se fazer leite em sequeiro, em prados, em bons restolhos de azevém, em boas pastagens permanentes. No nosso caso, o grupo de ordenha, no verão, vai pastar à noite; no inverno, pasta durante o dia. O regadio ajuda, claro, mas não é a única solução.
A exploração tem 52 hectares de regadio com dois pivots, 258 hectares de prados permanentes de sequeiro e 25 hectares de culturas forrageiras anuais de pastoreio e corte. Em termos de produção de matéria seca, estimamos cerca de 9 toneladas por hectare no regadio, maioritariamente consumidas em pastoreio, e entre 2,5 e 4,5 toneladas por hectare no sequeiro, dependendo do ano.
A APOSTA NAS SEMENTES E NAS PASTAGENS
É essencial apostar nas sementes adequadas?
Sim, e é precisamente aí que entra a Clever Clover. Ao longo de muitos anos acumulámos experiência em Portugal, mas também em Espanha, Itália, França, Uruguai e outros contextos. Todo esse conhecimento foi reunido neste projeto. A grande preocupação é escolher bem as espécies e variedades, em função do solo, do clima e dos objetivos. Um dos erros mais frequentes na gestão das pastagens permanentes é fazer os prados apenas para cumprir projetos de investimento, com o menor custo possível, sem cuidar da escolha das espécies e variedades. Isso leva a prados que morrem sem deixarem qualquer legado produtivo.
Quanto tempo pode durar um prado permanente?
Pode durar 10, 12, 15, 20, 25 ou até 50 anos, dependendo da sua instalação e da sua gestão. Os prados permanentes são investimentos estruturantes, porque permitem melhorar de forma duradoura qualidade das pastagens, embora impliquem custos 30% a 40% superiores aos de uma cultura anual. Para que resultem, é essencial instalá-los com as espécies e variedades mais adequadas, nomeadamente leguminosas com sementes duras e diferentes ciclos produtivos. Além disso, o maneio no primeiro ano é decisivo para o seu sucesso, até porque se trata de prados com potencial para durar muitos anos.
Embora seja importante que os prados sejam apoiados por ajudas ao investimento, é fundamental que sejam implantados com fórmulas adequadas, acompanhados por uma fertilização inicial e de manutenção ajustada, e sujeitos a um bom maneio. Nos últimos anos, muitos prados foram instalados apenas para cumprir candidaturas, e os maus resultados dessas opções acabam por comprometer a perceção do seu valor, deixando a ideia errada de que os prados não funcionam. Na realidade, a produção de um prado pode ser até cinco vezes superior à de uma pastagem natural. Hoje fala-se muito do custo dos fertilizantes, sobretudo do azoto, mas as leguminosas têm aqui uma vantagem determinante: fixam azoto atmosférico e disponibilizam-no às plantas de forma natural, sem custos adicionais, independentemente do contexto internacional. Para além disso, produzem grandes quantidades de proteína, melhoram a estrutura orgânica do solo através do sequestro de carbono, reduzem a erosão e ajudam a combater a invasão de matos. São, por isso, uma solução com múltiplos benefícios, tão positivos quanto necessários, embora nem sempre devidamente valorizados.
Fazem ressementeiras?
Sim, fazemos ressementeiras quando isso faz sentido, sempre em função das características do solo, da topografia e da pedregosidade. O prado permanente deve ser particularmente promovido nas zonas onde a mobilização do solo é mais difícil, precisamente porque a lógica passa por fazer um esforço inicial que permita melhorar de forma duradoura a pastagem e evitar mobilizações anuais.
Neste contexto, a ressementeira assume um papel fundamental, já que permite aumentar a produção. As sementes duras das leguminosas são especialmente importantes, porque asseguram maior persistência do prado e uma melhor capacidade de regeneração, mesmo após anos secos.
É uma prática particularmente recomendável quando os prados já têm alguns anos e a estrutura do solo se encontra mais equilibrada e melhorada. Nestas condições, a sementeira direta, feita no final do verão, antes das primeiras chuvas, revela-se uma solução económica e muito eficiente.
A RECRIA DAS FUTURAS REPRODUTORAS
Como é feita a recria das borregas de reposição?
A partir dos 2,5 a 3 meses de idade, as fêmeas de reposição passam a viver em pastoreio, de dia e de noite, suplementadas com ração, cereais e blocos minerais. É fundamental que aprendam cedo a pastar, a caminhar e a viver no campo, para chegarem a adultas preparadas para este sistema.
Estimamos que cerca de 50% dos alimentos consumidos pelos animais em crescimento sejam comprados. Ainda assim, num regime de pastoreio, muitos desses nutrientes regressam ao solo através das fezes, o que também contribui para o equilíbrio do sistema.
A primeira cobrição acontece entre os sete e os nove meses, e a média etária ao primeiro parto é de 13 meses.
ALEITAMENTO ARTIFICIAL E MONITORIZAÇÃO DO CRESCIMENTO
Como são criados os borregos?
Os borregos são criados em aleitamento artificial, com cinco máquinas automáticas, cada uma com capacidade para até 400 animais. São desmamados com cerca de 30 dias e têm acesso a ração de iniciação a partir dos cinco dias de vida.
Os ganhos médios diários rondam os 310 gramas por dia, com vários animais acima das 400 gramas por dia. O crescimento é monitorizado com um grupo representativo entre 8% e 15% dos animais, que é pesado semanalmente e acompanhado no Clever Flock.
REPRODUÇÃO E PREPARAÇÃO PARA O PARTO
Como gerem a reprodução e apreparação para o parto?
Fazemos mais de 3.000 ecografias por ano para identificar as ovelhas prenhas, e toda essa informação é registada no Clever Flock. As ovelhas em pré-parto permanecem em pastoreio durante o dia e recolhem ao ovil à noite.
A preparação para o parto é absolutamente fundamental para a lactação. Cerca de 30 a 45 dias antes de parirem, as ovelhas entram numa fase de preparação nutricional, profilática e de maneio. Uma ovelha de leite não começa a produzir no dia em que entra na sala de ordenha; muito do que vai produzir depende dessa preparação.
Em termos reprodutivos, a exploração trabalha com uma taxa de fertilidade de 90%, uma prolificidade de 1,35 borregos por parto, um intervalo médio entre partos de 325 dias e uma taxa de desmame de 120%.
PRODUÇÃO MÉDIA E OBJETIVOS DA EXPLORAÇÃO
Qual é a produção média da exploração?
Produzimos entre 950.000 e 980.000 litros de leite por ano. Temos, conforme a época, entre 1.200 e 1.800 ovelhas em ordenha. A produção média por ovelha em lactação ronda os 2,65 litros por dia, variando entre 2,40 e 2,80 litros, e a produção média por lactação situa-se nos 385 a 390 litros. Em termos anuais, a média é de 445 a 462 litros por animal, incluindo as primíparas. O nosso objetivo é chegar aos 550 litros por ovelha por ano. Neste momento, cerca de 25% do efetivo já está acima desse nível.
Qual é a qualidade do leite produzido?
O leite apresenta teores de gordura entre 6,5% e 7% e teores de proteína entre 5,2% e 6,5%. A exploração está integrada na Região Demarcada do Queijo de Nisa, fornecendo várias queijarias da região, embora apenas cerca de 50% do leite seja transformado em queijo DOP Nisa.
Que perspetiva tem sobre o mercado do queijo de ovelha?
Portugal produz queijos de grande qualidade e diversidade, assentes em saberes tradicionais. No entanto, praticamente não há exportação de queijo. Acredito que a exportação é não só possível como desejável. Pode ser um enorme estímulo ao crescimento do setor, tal como aconteceu com a exportação de ovinos e bovinos em vida, que alterou profundamente a rentabilidade e as expectativas da fileira.
A ALIMENTAÇÃO DOS DIFERENTES GRUPOS EM PRODUÇÃO
Qual é a alimentação das ovelhas em produção?
Depende dos grupos de produção. Há um princípio fundamental: para os animais andarem em pastoreio, têm de aprender a pastar desde cedo. A partir dos três meses, verão ou inverno, os nossos animais estão no campo bem suplementados, com minerais e ração, para se habituarem a comer erva.
Nos animais em produção, a alimentação é ajustada em função dos grupos e das curvas de lactação. Os dados da sala de ordenha são transferidos automaticamente para o Clever Flock todas as segundas-feiras, o que permite analisar produções, alarmes e fazer uma gestão personalizada.
Nos animais em alta produção, com 2,5 a 2,8 litros por dia, o maneio inclui cerca de oito horas de pastoreio em azevéns e trevos, o equivalente a cerca de 4 kg de matéria verde, mais 1 a 1,1 kg de ração por dia na sala de ordenha. Além disso, recebem unifeed composto por 0,60 kg de ração de lactação, 0,70 kg de feno de luzerna, 0,40 kg de feno de mistura SPMIX 1 e 0,18 kg de melaço.
No último terço da lactação, com produções em torno de 0,8 litros por dia, as ovelhas pastam todo o dia em sequeiro, são ordenhadas uma vez por dia e recebem cerca de 0,5 kg de ração na sala de ordenha.
O que complementa a pastagem?
A pastagem é complementada com ração e forragem no unifeed, onde entram luzerna, fenos de qualidade, ração e minerais. Procuramos um arraçoamento equilibrado, com produtos de qualidade, e evitamos o uso de palha como base alimentar. Utilizamos feno de luzerna, fenos de mistura ou de aveia e, sempre que possível, palha de trevo-da-pérsia.
A ração da sala de ordenha é a mesma para todas as ovelhas, embora a quantidade varie em função do grupo produtivo. É uma ração formulada especificamente para nós, e esse é um grande desafio. Desde há cerca de 3 anos que temos a De Heus como fornecedor da ração e da nutrição, nas ovelhas em produção. É o Sérgio Henriques que faz o acompanhamento nutricional, e tem feito um grande trabalho.
Esquerda para a direita: Igor Svet (líder operacional da equipa Fertiland), João Paulo Crespo e Micha Svet (colaborador Fertiland)
PRINCIPAIS INDICADORES DA EXPLORAÇÃO
Quais são os principais indicadores da exploração?
Em termos globais, produzimos cerca de 2.800 litros de leite por hectare e 95.000 litros por trabalhador por ano.
Desmamamos, em média, 1,20 borregos por ovelha. Refugamos para abate entre 250 e 300 animais por ano. A mortalidade de borregos ronda os 6% e a de adultos os 3%.
Além do leite e dos animais reprodutores, a exploração comercializa também cerca de 1.950 borregos e produz aproximadamente 600 toneladas de estrume de ovelha por ano, proveniente das camas, acarros e parques de entrada na sala de ordenha. As ajudas da PAC, entre RPB e prémio aos ovinos, representam apenas cerca de 4% da receita.
DADOS DA EXPLORAÇÃO
| Indicador | Valor |
| Leite produzido/vendido por ano | 950.000 litros |
| Efetivo de produção (ovelhas e malatas) | 3.000 |
| Borregos | 1.950 |
| Estrume de ovelha | 600 t/ano |
| Ajudas da PAC (RPB + prémio ovinos | 4% da receita |
| Nº total de ovelhas | 2.400 adultas + 600 malatas |
| Nº de ovelhas em ordenha | 1.200 a 1.800, conforme a época |
| Produção de leite por ano | 950.000 litros |
| Produção média por ovelha/dia | 2,65 litros/dia |
| Variação da produção diária | 2,40 a 2,80 litros/dia |
| Produção média por ovelha/lactação | 385 litros |
| Produção anual por ovelha | 462 litros |
| Duração média da lactação | 240 dias |
| Teor de gordura | 6,5% a 7,0% |
| Teor de proteína | 5,2% a 6,5% |
| Produção de leite por kg de matéria seca | 0,85 litros/kg de MS comprada + 1 kg de MS consumida da pastagem |
| Produção em regadio | 9 t/ha de MS |
| Produção em sequeiro | 2,5 a 4,5 t/ha de MS |
| Taxa de fertilidade | 90% |
| Taxa de prolificidade | 1,35 borregos/parto |
| Intervalo entre partos | 325 dias |
| Idade ao primeiro parto | 13 meses |
| Taxa de partos | 90% |
| Taxa de desmame | 120% |
| Taxa de substituição anua | 20% a 35% |
| Idade à primeira cobrição | 8 meses |
| Borregas selecionadas para reposição | 400 a 700/ano |
| Mortalidade de borregos | 6% |
| Mortalidade de adultos | 3% |
| Animais refugados para abate | 250 a 300/ano |
| Produção dos animais em alta produção | 2,5 a 2,8 litros/dia |
| Pastagem dos animais em alta produção | Azevéns e trevos — 8 horas em pastoreio |
| Consumo de pastagem em alta produção | 4 kg de matéria verde |
| Ração na sala de ordenha | 1,0 kg/dia |
| Unifeed: ração de lactação | 0,60 kg |
| Unifeed: feno de luzerna | 0,70 kg |
| Unifeed: feno de mistura SPMIX 1 | 0,40 kg |
| Unifeed: melaço | 0,18 kg |
| Produção no último terço da lactação | 0,80 litros/dia |
| Pastagem no último terço da lactação | Sequeiro todo o dia |
| Ração no último terço da lactação | 0,5 kg/dia |
| Litros de leite por ovelha/ano | 462 litros |
| Litros de leite por hectare | 2.800 litros/ha |
| Litros de leite por trabalhador/ano | 95.000 litros |
| Borregos desmamados por ovelha | 1,20 |
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