Importância da água na alimentação
A água de bebida é um fator determinante, mas muitas vezes negligenciado, na produção de leite. Quantidade, qualidade e acesso adequado influenciam diretamente a ingestão alimentar, a saúde, o bem-estar e o desempenho produtivo das vacas leiteiras. Compreender o papel da água e os fatores que condicionam o seu consumo é essencial para garantir a eficiência e a rentabilidade das explorações leiteiras. Oferecer água em quantidade e com qualidade é um requisito básico para garantir o sucesso do efetivo leiteiro.
A água é essencial à vida e, apesar de frequentemente subestimada, é o nutriente mais importante para os animais. É também o nutriente mais consumido pela vaca e esta necessita de cerca de 3 litros de água por litro de leite produzido. Uma diminuição na ingestão de água, representa sempre uma diminuição na produção de leite e também de ingestão de matéria seca do alimento. A água de bebida cobre entre 60% a 80% das necessidades em água das vacas, sendo as restantes necessidades cobertas essencialmente pela água contida nos alimentos.
FUNÇÕES DA ÁGUA NO ORGANISMO DA VACA
A principal função da água é manter a regulação térmica e nutrir as células dos tecidos, além de repor todas as formas de perda de água, como urina, fezes, leite, saliva, respiração e transpiração.
A ingestão de água é desta forma essencial para bovinos leiteiros, desempenhando as seguintes funções:
- Produção de leite: é fundamental para a sua formação e volume.
- Nutrição e metabolismo: atua como solvente, transporte de nutrientes, essencial no funcionamento do rúmen, absorção, metabolismo e eliminação de resíduos.
Tabela 1 | Necessidade de ingestão de água diária de vacas leiteiras de acordo com a variação de temperatura ambiente
| 5ºC | 15ºC | 28ºC | |
| Vaca seca | 43 l | 58 l | 78 l |
| Vaca 15 l | 62 l | 77 l | 97 l |
| Vaca 30 l | 76 l | 92 l | 112 l |
| Vaca 45 l | 96 l | 112 l | 132 l |
- Homeostase e regulação térmica: mantém o volume sanguíneo, a hidratação dos tecidos e ajuda a regular a temperatura corporal (termorregulação) especialmente em climas quentes.
- Saúde e bem-estar: previne doenças, ajuda na lubrificação das articulações e no bom funcionamento dos órgãos, sendo fundamental para a saúde geral do efetivo.
FATORES QUE INTERFEREM NA INGESTÃO DA ÁGUA
Existem diversos fatores que podem afetar o consumo de água pelos animais:
- Taxa metabólica: quando o metabolismo do animal é alto ou acelerado devido ao alto consumo de matéria seca então haverá maior produção de calor e consequentemente aumento no consumo de água.
- Temperatura ambiente: em situações de temperatura elevada há maiores perdas de água pelo animal e o consumo de água aumenta.
- Temperatura da água: de uma forma geral, temperaturas da água abaixo de 6 ºC e acima de 36 ºC levam a uma redução no consumo de água pelas vacas. A temperatura ideal da água de bebida deve situar-se entre os 17 e 24 ºC.
- Humidade do ar: com humidades relativas do ar elevadas ocorre uma redução no consumo de água, diminuição na ingestão de matéria seca e uma diminuição na capacidade de aplicação dos mecanismos de perda de calor por evaporação.
- Teor de matéria seca da dieta: quando o teor de humidade do bolo alimentar é elevado o consumo de água no bebedouro diminui.
- Composição da dieta: em casos de rações com alta densidade proteica, muito sal ou bicarbonato ocorre aumento significativo do consumo de água pelos animais.
- Estado fisiológico: a idade, atividade física, fase da lactação e de gestação influenciam a ingestão de água.
SINAIS COMUNS DE INGESTÃO DE ÁGUA DE MÁ QUALIDADE:
- Depressão do sistema imunitário e contagem elevada de células somáticas, o que pode levar a uma redução da produção de leite e a má qualidade deste.
- Aumento das falhas reprodutivas.
- Quebras na ingestão de alimentos e ingestão irregular.
- Diarreias e outros distúrbios digestivos.
FATORES LIMITANTES NA INGESTÃO DE ÁGUA:
- Número insuficiente de bebedouros
- Má localização dos bebedouros
- Bebedouros com avaria
- Bebedouros desadequados
- Fluxo de água insuficiente
- Bebedouros sujos
- Má qualidade da água
RECOMENDAÇÕES DE BOAS PRÁTICAS NO MANEIO DA ÁGUA DE ABEBERAMENTO
- Coloque os bebedouros a uma altura de 60-90 cm.
- O bebedouro deve ter pelo menos 120 cm por 40 cm.
- Deve haver pelo menos 20 cm de profundidade de água no bebedouro.
- O fluxo de água deve ser pelo menos de 20 l/min.
- Coloque bebedouros na saída da ordenha.
- Forneça pelo menos 1 bebedouro para cada 15-20 vacas.
- Faça a limpeza regular dos bebedouros.
- Assegure-se que a água dos bebedouros não salpique e molhe os cubículos.
- Assegure-se que vacas em pé nos cubículos não consigam chegar aos bebedouros.
- Assegure-se que o “unifeed” não despeje alimentos para o bebedouro.
É fundamental avaliar de forma periódica a qualidade física, química e microbiológica da água oferecida aos animais.
As tabelas abaixo definem um conjunto de parâmetros físico-químicos e microbiológicos analisados em água de abeberamento de animais
TABELA 2 | PARÂMETROS FÍSICO-QUÍMICOS AVALIADOS NA ÁGUA DE BEBIDA PARA ANIMAIS
| Ensaio | Unidade | Valor paramétrico |
| Sabor | 3 | |
|
Amónia Condutividade Cor |
mg/l NH4 µS/cm a 20ºC mg/l PtCo |
0.50 2500 20 |
| Manganês | µg/l Mn | 50 |
|
Nitratos Oxidabilidade pH Cheiro |
mg/l NO3 mg/l O2
|
50 5.0 6.5 - 9.0 3 |
TABELA 3 | PARÂMETROS MICROBIOLÓGICOS AVALIADOS NA ÁGUA DE BEBIDA PARA ANIMAIS
| Ensaio | Unidade | Valor paramétrico |
|
Micorganismos viáveis 22ºC Bactérias coliformes |
ufc/ml ufc/100 ml |
Sem alteração anormal 0 |
| Escherichia coli | ufc/100 ml | 0 |
|
Enterococos Clostridium perfringens |
ufc/100 ml ufc/100 ml |
0 0 |
Em suma, para o sucesso produtivo, reprodutivo e financeiro da sua exploração é muito importante que esteja atento aos tópicos abordados neste artigo e faça análises físico-quimicas e
microbiológicas à água de bebida dos seus animais pelo menos 1 vez por ano. Descuidar a qualidade da água que fornece aos seus animais pode comprometer a rentabilidade da sua exploração.
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